Você está aqui: Capa » Notícias » Literatura, infância e escola: relações e possibilidades

Literatura, infância e escola: relações e possibilidades

Por Elaine Vidal

 

Recentes polêmicas levantadas na mídia nacional têm suscitado, atualmente, discussões acerca da literatura infantil. Há, entre os títulos sugeridos para crianças, alguns que possam ser considerados “impróprios” para elas? Por qual razão? O que se deve ler na escola ou fora dela? Como fazer essa seleção? Como “proteger” as crianças sem incorrer em atitudes repressoras ou de censura? Quais os limites dessa arte? Qual o papel do professor nesse contexto? Essas e outras dúvidas povoam a mente das famílias e têm se materializado através de questionamentos e preocupações dos pais. Dada a importância do assunto, julgamos conveniente esclarecer nossa posição enquanto escola.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que consideramos o acesso à literatura um direito humano, algo essencial na constituição de nossa identidade. Alinhamo-nos, neste sentido, à postura de Antônio Cândido, grande sociólogo e estudioso da literatura brasileira e estrangeira que já escrevia, em 1988:

 

            Não há povo e não há homem que possa viver sem ela [a literatura], isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. (…) O sonho assegura durante o sono a presença indispensável deste universo, independente de nossa vontade. E durante a vigília, a criação ficcional ou poética, que é a molda da literatura em todos os seus níveis e modalidades, está presente em cada um de nós, analfabeto ou erudito – como anedota, causo, história em quadrinhos, noticiário policial, canção popular, moda de viola, samba carnavalesco.

 

Sendo o universo da fabulação – materializado através da literatura – um direito humano, cabe a nós, enquanto instituição escolar, assegurar o cumprimento deste direito. Assim, compete-nos não apenas ensinar as crianças a ler, para que possam usufruir da literatura em sua plenitude, como também é nosso papel oferecer-lhes amplo repertório de leitura.

Qualquer livro pode ser oferecido a qualquer criança? Entendemos que na escola não. Nossos critérios de escolha, porém, não se pautam na adequação do livro a determinada faixa etária (adequação esta, por vezes, imposta arbitrariamente pelas editoras, sem levar em consideração a criança real com quem convivemos diariamente). Mais do que isso, entendemos a escola como espaço de ampliação de horizontes e, neste contexto, a ela cabe oferecer acesso a bens culturais a que as crianças não teriam acesso fora dela. Utilizamos este princípio nas músicas que cantamos (sempre buscando fugir do chamado “circuito comercial”), nos temas de nossas festas e celebrações (sempre buscando remeter às origens das festividades), nos vídeos que apresentamos (sempre com a intenção de subsidiar projetos didáticos) e também nos livros que lemos. Fugimos de best-sellers e daquele formato de livro já amplamente conhecido da maioria das crianças. Rejeitamos linguagens empobrecidas, narrativas superficiais e textos mais voltados ao ensino da leitura do que à sua fruição. Buscamos, sim, títulos de qualidade, sejam eles publicações antigas ou modernas, clássicas ou contemporâneas, pouco ou muito ilustradas, fáceis ou difíceis de serem encontradas. Nossa maior busca é sempre pela literatura infantil de qualidade. E o que seria essa qualidade?

Segundo Lúcia Pimentel Góes, uma grande estudiosa de literatura infantil no Brasil e também autora de livros infantis,

 

            Literatura infantil é linguagem carregada de significados ao máximo grau possível, dirigida ou não às crianças, mas que atenda às suas exigências.

 

Vemos, assim, que um bom livro infantil pode não ter sido escrito especificamente para crianças, mas ter ganho posteriormente esse status pelo fato de atender às suas exigências. Neste sentido, não faria sentido nos atermos a “livros para crianças de 3 anos” ou “livros para crianças de 5 anos”, por exemplo. As exigências e peculiaridades de cada aluno são únicas, e o que agrada a um pode não atender a outro, independente de faixa etária. Assim, nossas listas de “cirandas de livros” são sugestões de títulos divididas entre as turmas unicamente por uma questão didática, mas não por pertencerem exclusivamente àquele grupo.

Atender às exigências infantis não é tarefa fácil, mas nos propomos a isso com nossas indicações literárias, não entendendo tais exigências como caprichos infantis, mas como necessidades de crescimento e desenvolvimento humanos. Assim, entendemos que atenderão às exigências das crianças os livros que lhes permitam mergulhar no universo da fabulação com verdade e encantamento: narrativas e poéticas que as façam sonhar, rir, duvidar, sentir medo, assustar-se, enraivecer-se, indignar-se, chorar…

Falar em oferta de livros que causem medo, tristeza ou raiva nas crianças, por exemplo, pode parecer estranho ou mesmo incoerente a uma instituição educativa. Em tempos em que Walt Disney representa um dos maiores ícones do entretenimento infantil, pode parecer que todo produto voltado a este público deva ser alegre, colorido e feliz. Entretanto, sabemos que esses sentimentos “indesejáveis” são parte da gama de sentimentos humanos e, ao vivenciá-los através da literatura, a criança fortalece-se para quando precisar vivenciá-los na prática. Mesmo quando o curso da narrativa foge ao esperado, é um alívio para a criança poder dizer: “Ainda bem que era só uma história…!”

É preciso também dizer que, historicamente, a literatura infantil nasce em uma concepção “moralizante”: as primeiras obras escritas para crianças tinham a intenção de educá-las, transmitindo ensinamentos morais. Praticamente todos os livros escritos com esta função não apenas fracassaram em sua missão, como foram esquecidos pela tradição literária. Sobreviveram e tornaram-se clássicos aqueles que, como toda forma de arte, buscavam provocar, instigar, divertir, emocionar…

E por que alguns livros nos tocam (e também às crianças) e outros não? A resposta vem fácil se lembrarmos que a matéria-prima da literatura é a própria vida, com todas as suas singularidades e contradições. Todo leitor, grande ou pequeno, reconhece a literatura que utiliza a vida como ponto de partida ou não. Livros que procuram eliminar contradições, que distorçam a narrativa a fim de não despertar sentimentos ruins, cujas personagens sejam, todas, “politicamente corretas”, soam como obras falsas, porque a vida não é assim… Em uma narrativa infantil, então, a personagem pode cometer um ato “errado”? Pode ser mostrado o “lado feio” da vida e das pessoas?  Podem aparecer vilões que despertem medo? O final pode não ser feliz? A resposta a todas essas questões é “sim”, especialmente dentro da escola. Sim, em primeiro lugar, porque “proteger a infância” não significa pintar um mundo cor-de-rosa, alienando os pequenos do universo à sua volta. Pelo contrário, fazer isso é desprotegê-los, pois cria-se uma percepção falsa da vida e das pessoas e, na hora de “enfrentar o mundo real”, a criança não terá subsídios para lidar com as dificuldades. Sim, em segundo lugar, porque a escola é espaço de debates e reflexão: a presença dos conflitos nas obras literárias permitirá aos professores fazer intervenções, levantar questionamentos, ouvir os alunos e conduzir o grupo a reflexões profundas sobre os mais diversos temas de nossa sociedade. Sim, em terceiro lugar, porque literatura é arte, e a função da arte não é promover uma educação moralizante, mas despertar provocações que façam o sujeito (no caso, o leitor) refletir, ponderar e crescer enquanto ser humano. Uma obra que “mexa” com todos aqueles que com ela têm contato, essa é a verdadeira obra de arte de qualidade!

Desta forma, oferecemos a nossos alunos livros que possuam esse tipo de qualidade, não nos atendo a princípios moralizantes ou a finais felizes. Confiamos na capacidade de nossos alunos de ler, vivenciar as emoções suscitadas pelo livro, elaborá-las e superá-las, sejam elas emoções confortáveis ou desconfortáveis. Mais do que isso, confiamos na capacidade profissional de nossos professores que, como mediadores de leitura, estão aptos a provocar questionamentos, debater argumentos, instigar reflexões de variados matizes e, assim, tornar a experiência da leitura na escola uma vivência rica, produtiva e inesquecível para todos os alunos, de todas as idades.

 

Referências bibliográficas: 

CÂNDIDO, Antonio. O direito à literatura. Em: Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 5a ed, 2001

GÓES, Lúcia Pimentel. Introdução à literatura infantil e juvenil.2ª Ed. São Paulo: Pioneira, 1991.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Scroll To Top